Nove Cesarianas, Nove Filhos Mortos, Uma Fuga Novel – Capítulo 1 Eu já tinha perdido a conta de quantas cesáreas havia feito. A incisão tinha se rompido. Eu estava deitada na mesa de cirurgia enquanto o grito áspero de um recém-nascido atravessava a sala estéril ao lado. Meu filho. Acabado de nascer. E já estavam retirando sua medula óssea. Tudo para manter viva a namoradinha de infância de Julian Ashworth. Aquela com a doença no sangue. O Dr. Leonard Voss entrou às pressas pela porta, tropeçando nos próprios pés. — Sr. Ashworth! Os sinais vitais do bebê estão caindo. Se continuarmos a tirar mais… A voz de Julian veio fria. Sem ondulação. Sem hesitação. — Continuem. Priscilla está esperando os resultados de compatibilidade. O choro enfraqueceu. Mais baixo. Mais fraco. Até desaparecer.
Eu tentei gritar, mas minha garganta travou. Só o sangue continuava se movendo, jorrando de mim em ondas quentes e silenciosas, encharcando metade do campo cirúrgico. Julian finalmente apareceu ao meu lado, enxugando meu suor com uma devoção quase terna. — Vivienne. Você empurrou a Priscilla escada abaixo anos atrás. Você destruiu o corpo dela. Cada filho que você me deu, cada extração… essa é a dívida que você deve a ela. — Quando você se recuperar, teremos mais. Eu assenti. Sem reação. Mecânica. Ele sorriu, satisfeito. Então se virou e gritou com a equipe médica para acelerar o procedimento. O bebê ficou em silêncio de vez. No instante em que uma lágrima escorreu pelo meu rosto, o sistema emitiu um aviso. [Colapso emocional da hospedeira detectado. Missão concluída: produzir múltiplos descendentes para o CEO sem herdeiros. Desconectar-se do mundo?] … Eu confirmei. [Em três dias, seu corpo físico neste tempo-espaço deixará de existir.
A hospedeira será então desconectada.] O tom frio e monótono do sistema e a voz suave de Julian chegaram ao mesmo tempo. — Quando você me der outro filho, eu vou amá-lo. Eu prometo. Um gelo se espalhou pelo meu peito. Ele não sabia. Não haveria mais filhos. Ainda assim, eu assenti. Depois que me suturaram, arrastei meu corpo para fora da mesa e cambaleei até meu filho morto. Seu rostinho pequeno estava arroxeado. Marcas de agulha cobriam todo o seu corpo. Ele não chegou a completar uma hora fora do meu ventre antes de parar de respirar. Minhas mãos tremiam enquanto o eu o segurava nos braços. Eu soluçava cantando canções de ninar, com lágrimas descendo sem parar pelo meu rosto. O luto era algo vivo, rasgando minhas costelas por dentro. Eu engasgava com a própria respiração. Minhas pernas cederam mais de uma vez. Julian me envolveu com um braço, a voz carregada de um arrependimento ensaiado. — Vou contratar a melhor equipe.
Faremos um funeral digno, o mais elaborado possível… Antes que ele terminasse, o assistente da Sra. Velha Ashworth chegou. — Sr. Ashworth. A Sra. Velha Ashworth diz que perder filho após filho sem nada para mostrar trouxe vergonha a esta família. — O conselho também está murmurando. Eles esperam que o senhor se manifeste. Julian lançou um olhar para o meu rosto vazio e respondeu com impaciência repentina. — A Vivienne acabou de sair da cirurgia. Isso pode esperar. O assistente insistiu. — A Sra. Velha Ashworth quer saber como o senhor pretende lidar com sua esposa. A família Ashworth não tem utilidade para uma mulher que não consegue gerar um herdeiro. Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos até o sangue surgir. E algo tremeluziu no meu peito. Uma esperança que eu já deveria ter sabido que não devia alimentar. Eu esperava que ele contasse à Sra.
Velha Ashworth a verdade sobre como nossos filhos morriam. Do corredor, a voz desesperada de uma enfermeira cortou o ar. — Sr. Ashworth! A febre da senhorita Holloway voltou a subir! Ela não consegue manter a medicação… Julian me empurrou para os braços do assistente e saiu em três passos largos. — Deixem minha mãe decidir. Me arrastaram de volta para a ala antiga da Mansão Ashworth. Esther Ashworth estava sentada ali, passando as contas do rosário entre os dedos, me olhando de cima com uma compaixão ensaiada. — Vivienne. Uma década nesta família e nenhum filho para mostrar. Dizem que uma mulher amaldiçoada não consegue manter seus descendentes. Com um sinal dela, dois empregados me forçaram a ajoelhar no chão. — Hoje, você vai se ajoelhar na capela da família e pedir perdão. Escondidos sob o tapete, cacos de vidro quebrado perfuravam meus joelhos.
Uma chuva de agulhas de dor acendeu meus nervos. Ela empurrou uma tigela para minhas mãos, cheia de feijões secos vermelhos e verdes misturados. — Separe-os. Um por um. Considere isso uma oferenda pelas crianças. O ritual era simples. Pegar um feijão. Mãos juntas. Testa no chão. Rezar. De novo. A tigela tinha centenas. Eu não cheguei nem na metade antes que meus pontos recém-feitos se abrissem. O sangue jorrou, formando uma mancha vermelha violenta no meu vestido de seda. Minha testa bateu com força no chão. A pele se abriu. O sangue escorreu pelo meu rosto. Eu perdi a conta depois de cem. Meu couro cabeludo virou um campo de feridas abertas, minha garganta arranhada em carne viva. A névoa carmesim ficou tão espessa que eu já não conseguia enxergar. Afundei no escuro.
Em algum lugar daquele nevoeiro, alguém segurou minha mão e murmurou pedidos de desculpas ao lado da minha cama. Parecia apenas barulho. Quando finalmente forcei meus olhos a abrirem, a voz doce de Priscilla veio da sala ao lado. — Julian. Você é tão bom comigo. — Eu disse que queria te dar um bebê, e você simplesmente… deixou tudo de lado por mim…