O Segredo do Motorista — Um Compartimento Escondido Destruiu Meu Casamento de Dez Anos Novel – Chapter 1 1.1Por dez anos, paguei ao meu motorista, o Seu Morgado, um salário alto. Trinta e cinco mil por mês, mais bônus nos feriados. Também paguei a faculdade da filha dele e as contas do hospital da esposa. Júlio Cruz dizia que eu jogava dinheiro fora. — Ele é só um motorista. Você o trata como se fosse da realeza. Não discuti. O Seu Morgado era honesto de verdade. Reservado. Seguro ao volante. Dez anos sem um único acidente. Mais importante ainda: ele conhecia Júlio havia mais tempo do que qualquer outra pessoa. Mais tempo até do que eu. Hoje era o dia da aposentadoria do Seu Morgado. Eu mesma o levei de volta à sua cidadezinha do interior. No banco de trás, havia uma garrafa de bourbon de primeira, um vale-presente de uma churrascaria sofisticada.
E um envelope com vinte mil dólares em dinheiro. Júlio não sabia. Se soubesse, diria outra vez que eu estava jogando dinheiro fora. Estacionei na entrada da propriedade dele. O Seu Morgado desceu, descarregou suas coisas e então se virou para mim, fazendo uma leve reverência. — Senhora Cruz — disse ele. — Obrigado. Por esses dez anos. — Eu é que agradeço por tudo — respondi. — Sou grata por tudo o que fez. Ele se virou e deu alguns passos, mas hesitou. A luz do sol batia em seu rosto enrugado. Sua expressão era difícil de decifrar. Hesitação. Conflito. E algo muito parecido com culpa. — Senhora Cruz — disse ele de novo. — Sim? — Olhe o compartimento escondido no porta-malas do senhor Cruz. A senhora precisa olhar. Então ele se virou e foi embora, mais depressa do que antes, como se tivesse medo de mudar de ideia. Fiquei sentada no banco do motorista, com as mãos no volante, sem me mexer. O porta-malas. Um compartimento escondido. De repente, lembrei que o carpete do Bentley de Júlio parecia ter uma saliência em certo ponto.
Uma vez, perguntei a ele sobre aquilo. Ele disse que o estepe tinha saído do lugar. Eu acreditei. Como sempre. Dez anos de casamento. Eu acreditava em tudo o que ele dizia. Não fui direto para casa. Dirigi até uma cafeteria no centro e fiquei ali sentada por vinte minutos. O café preto na xícara esfriou. Não dei nem um gole. Minha cabeça não saía das últimas palavras do Seu Morgado. Eu o conhecia bem demais. Ele não era do tipo que se metia na vida dos outros. Por dez anos, levara Júlio ao trabalho, aos aeroportos, aos jantares de negócios. Vira tudo. Nunca dissera uma palavra. Hoje era seu último dia. E ele havia voltado apenas para me dizer aquilo. Isso queria dizer que o que quer que estivesse naquele compartimento o atormentava havia muito tempo. Tempo suficiente para fazê-lo se sentir culpado em relação a mim. Peguei o celular e abri minhas mensagens com Júlio. A última mensagem dele dizia: “Vou trabalhar até tarde. Não me espere acordada.” Ele me mandava aquela mesma mensagem havia dez anos. Pelo menos três vezes por semana. Nunca perguntei com quem ele estava nem onde jantava. A boa esposa, não é? Desliguei o celular, dei partida no carro e voltei.
Na garagem, o Bentley preto de Júlio estava parado, silencioso. Fui até ele e abri o porta-malas. O carpete estava liso e bem assentado. Passei a mão pela borda até encontrar uma emenda quase invisível. Puxei com força. Sob o carpete, havia um fundo falso com uma trava. Abri. Lá dentro, havia uma pasta preta. Peguei-a e abri o zíper. O primeiro item era uma escritura de propriedade. Condomínio Vista da Lagoa. Uma mansão de cerca de trezentos e cinquenta metros quadrados. Proprietária: Yara Vasconcelos. O nome não me dizia nada. O segundo item era uma pilha de comprovantes de transferência bancária.
Todo dia quinze, uma transferência automática de oitenta mil dólares. Destinatária: Yara Vasconcelos. Aquilo vinha acontecendo havia três anos. Sem falhar um único mês. O terceiro item era uma fotografia. Júlio Cruz estava com o braço em volta de uma jovem, em frente a uma mansão. Ela usava um vestido branco e sorria com doçura, com uma das mãos pousada sobre a barriga. Sua barriga estava levemente arredondada. No verso da foto, com a letra de Júlio, havia uma frase: [Espere por mim, meu amor. Você e o bebê.]