Quem é a Verdadeira Principessa da Máfia Novel – Capítulo 1 Desde pequena, ouvi incontáveis vezes a mesma coisa de toda a família da Máfia: eu era uma enjeitada, uma substituta. Se eu sorrisse para meu irmão Rafael, ele imediatamente me chamava de puxadora de saco. Quando finalmente conquistei o primeiro lugar em um concurso de piano, meus pais mandaram destruir o instrumento ali mesmo, dizendo que eu vivia às custas do sangue da verdadeira Principessa Elowen. Todos na família pisavam em ovos ao meu redor, tomando cuidado para nunca serem gentis demais comigo — aterrorizados com a possibilidade de que, algum dia, eu disputasse o amor deles com Elowen.
Por isso, quando Elowen voltou para casa, fui eu quem se ofereceu para procurar meus verdadeiros pais. Eles imploraram para que eu não fosse embora, dizendo que eu sempre seria filha e irmã deles… desde que soubesse o meu lugar. Eu acreditei. Então veio o simulado. Elowen foi mal na prova. Chorando, disse que jamais conseguiria me alcançar, não importava o quanto se esforçasse… e cortou os próprios pulsos numa tentativa de suicídio. Eles me denunciaram por fraude no vestibular e me mandaram para a prisão. Disseram que aquilo era o castigo que eu merecia por ter roubado a vida de Elowen. Aceitei cada mentira e cada olhar frio de bom grado, acreditando que estava pagando pelos meus pecados. Hoje foi o dia da minha libertação. A neve caía pesada, enquanto o vento atravessava meus ossos como facas.
Um guarda me entregou um casaco velho. — Althea Moretti. Você está livre agora. Não… não cometa o mesmo erro outra vez. O olhar dele deslizou até meus punhos cerrados, e sua voz ficou mais baixa. — E diga para sua família levar você a um terapeuta. Encarei-o sem expressão e apenas assenti, puxando as mangas ainda mais para baixo. Certo. Minha dívida estava quitada. Agora eu finalmente podia encontrar minha verdadeira família. Eu tinha dado apenas alguns passos quando um Rolls-Royce preto, com o pisca-alerta ligado, parou ao meu lado. O vidro desceu lentamente, revelando um rosto bonito e familiar. Rafael. O verdadeiro irmão de Elowen. Os olhos dele continuavam exatamente como eu lembrava — frios, vazios, sem qualquer calor. — Althea. Entre no carro. Estamos indo para casa. Nem olhei para ele. Continuei andando em direção ao ponto de ônibus.
No instante em que coloquei o pé no primeiro degrau do ônibus, uma força brutal me puxou para trás, esmagando minhas costas contra a porta gelada do carro. Rafael se inclinou sobre mim, o desgosto estampado no rosto. — E agora? Vai copiar o teatrinho da Elowen? Está tentando fazer a gente se sentir culpado? — Dois anos na prisão e foi isso que você aprendeu? A prisão enferrujou minha mente. Fiquei olhando para ele, atordoada, demorando alguns segundos até conseguir entender o que ele tinha dito. Balancei a cabeça e tirei do bolso um pedaço de papel amassado, já fino de tanto ser tocado. Estendi para que ele visse. — Não… Minha voz saiu rouca. — Elowen foi me visitar da última vez. Ela disse que encontrou meus verdadeiros pais. Olha… este é o endereço. Eu vou para minha própria casa. Ele congelou por um instante. Então, o rosto dele ficou glacial. Rafael arrancou o papel da minha mão, rasgou em pedaços e jogou tudo na avenida movimentada. — Para de besteira.
Ele agarrou meu braço com força, o tom duro e impaciente. — Mamãe e papai estão esperando em casa. Você vem comigo— Soltei um grito agudo e me desvencilhei dele. Antes que Rafael pudesse entender o que estava acontecendo, corri direto para o meio da rua. — Casa… eu só quero ir para casa… Caí de joelhos no asfalto congelado, procurando desesperadamente pelos pedaços rasgados de papel. O som de pneus cantando e buzinas furiosas explodiu ao meu redor. — Que porra há de errado com você?! Ficou maluca?! O rosto de Rafael perdeu toda a cor. Ele avançou na minha direção, usando o próprio corpo para me proteger, enquanto se desculpava repetidamente com os motoristas furiosos antes de praticamente me arrastar de volta para a calçada. — Althea! O peito dele subia e descia com força. Havia medo nos olhos dele. Mas, acima disso, estava a mesma irritação de sempre — velha, profunda, impossível de abalar. — Se você quer morrer tanto assim, faça isso longe da minha vista! Esse teatrinho por atenção… depois de tudo o que a família Moretti fez por você! Os gritos dele me deixaram atordoada. Minha mente lenta demorou alguns segundos para acompanhar suas palavras. Então ergui o rosto e perguntei, genuinamente confusa: — Então… quando Elowen cortou os pulsos… aquilo também foi só para chamar atenção? — Isso não faz sentido… Rafael ficou completamente imóvel. Todas as palavras morreram em sua garganta. Pela primeira vez, ele desviou o olhar, incapaz de encarar meus olhos. Viu só? Até ele sabia que era verdade.
O nome Elowen pairava sobre minha cabeça como uma maldição desde que eu me entendia por gente. Eu era a falsa. A impostora roubando a vida dela. A pessoa que tinha tomado o lugar que pertencia à verdadeira filha. Foi por isso que a senhora Moretti demitiu a empregada que serviu minha sobremesa antes da de Elowen. Foi por isso que Don Moretti destruiu meu piano premiado. Foi por isso que Rafael enterrou vivo o cachorrinho que eu havia resgatado da rua. A cada escolha, eles deixavam uma coisa clara: Nunca permitiriam que a princesa perdida deles sofresse nem o mínimo desconforto por minha causa, mesmo depois de eu ter crescido ao lado deles todos aqueles anos. O favoritismo deles sempre esteve voltado para Elowen — absoluto, descarado e inquestionável. Mas ainda havia algo que eu não conseguia entender. Ela tinha o amor deles. Tinha tudo. Então por quê…? Por que cortar os próprios pulsos só porque tirou uma nota mais baixa do que eu em um simulado? Elowen… Do que exatamente você tinha tanto medo?